sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

pelo haiti

ai! haiti
que inimigos tens, secretos
feitos de homens, feito de deuses?
monstruosidades calam em teu leito
mudas a cada grande dor teu enorme pleito
pela vida, pelas águas, pela multidão de
teus feitos
desde a colônia francesa de são domingos
desde a revolução francesa
desde teu líder Toussaint L'Ouverture
que derrotou a França e a Inglaterra
preso por Napoleão
desde Dessalines e os jacobinos negros
que prosseguiram o combate e a conquistaram,
em 1804,
a Independência cruel, sangrenta e definitiva,
que batizaram em sangue o País como o nativo Haiti
e onde meu amigo chinês mora ou morava
(não sei dele) e ensinava;
ai de ti, ó povo da Independência vitimado
que atrai da vitória a maldição
a maldição dos heróis
a maldição dos deuses
pelo que produziste
o café, o anil, o cacau, o algodão
e o açúcar melhor do que ninguém
e onde meio milhão de escravos africanos trabalharam
ó vítima da liberdade
que os deuses me protejam da tua maldição!
ó, haiti

para Azenha

um punhal de neve
um buquë de ar
um sorriso leve
como o mar

para Azenha

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

dois universos

teu corpo sobre a cama teu corpo nu
e moreno, no momento dorme e ressonante
num mar verde meu sonho de navegação prossegue
um parque desconhecido tem animais e alguns
monumentos, teu belo país se estende no castelo
de ouro, onde tudo é estável e amplo
e se coloca um universo sobre outro

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ela era mestiça de chinês

ela era mestiça de chinês
mestiça de luar
era bonita em seu jardim
em seu pecado de flores
nos seus lábios havia um rio
o universo se abriu
eu pude entrar



(para Clarisse)



são de pedra as tuas vestes

são de pedra as tuas vestes
o teu blusão é de aço
são de bronze as tuas pernas
de ouro os teus cabelos
e da matéria virtual
a tua palavra o teu laço
sobretudo as tuas mãos
suavíssimas são de flores
o palco de teus amores
as linhas do teu pomar

o estar no mundo

estar no mundo
brincando de te beijar
sentir tua língua o peito
como se deve amar...
como eu gostaria que fosse
esse poema descrito
por mim que gosta sê-lo
e poderia retê-lo
amante na placidez
daquela tarde risonha
que só de versos alegra

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

o diamante azul




















meu diamante azul
constrói meu carbono
seu destino é o eterno
o universo a luz
o vazio o norte
o nome

um milhão de anos
meu diamante azul
estará vivo
no espaço das formas
no aço informe
na matéria nova
e morta
da coisa viva

meu diamante azul
é a morte

tem fome


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

noite de sedas, noites de segredos (2)

noite de sedas, noites de segredos
noite de cartas, de telefonemas
de amplos laços esgarçados
noite de fogos, de revelações
soube trazer na noite os mesmos passos
soube fazer naquela mesma taça
velha taça de prata familiar
o sonho o resumo o aparecer na planície
entre o branco das sedas e o azul deserto
quando a praia se abre em grandes constelações
em grandes flores-palácio
e escrito está na glória das belezas
o teu sorriso claro das estrelas plenas
noite de sedas, noite de surpresas

domingo, 3 de janeiro de 2010

ERAM DOIS POSTAIS MUI PÁSSAROS E PÓLEN

ERAM DOIS POSTAIS MUI PÁSSAROS E PÓLEN
desciam o declive da madrugada
se olharam parados e em sorrisos
um simulando atrás no escuro
outro concentrado picava suas penas

No volume da lua prata havia uma carta

E os dois se amaram ali daquele jeito
ouvindo gemer a fonte que gozava
fofa forte farfalhante madrugada


(poema antigo, reescrito)