sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

agonia carnaval




o carnaval passa nas cortinas
em batucada passa
no coração que implode em seguida
pulsando sensação de soluço e pandeiro
pela vidraça o brilho serpentina
rebola na tua boca fina
de onde o ouro sai e acende 

teus ingressos de salgada perfumada rima
neste carnaval de tão sonora massa
que desce pela viela para a praça

foi numa noite de agosto



 
 
 
 
 foi numa noite de agosto
 
rogel samuel
 

foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

a vida sob o vulcão




inclemente triste face
as imagens do vulcão
minha irmã indonésia
sofro com esse olhar de soslaio
Não é o Monte Sinabung
que abre a fúria dos deuses da terra
mas o teu recolhimento sereno
sob o lenço virginal
e a tua toca de freira
o pequenino nariz e a boca
e o olhar perdido no mundo
a triste face pequena




rogel samuel

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

noites de carnaval, noites

noites de carnaval, noites
de ruidoso amor
o baticum dos tambores
africanos
os humores eróticos
os tremores requebrados
passistas apressados
nas noites de antigos
carnavais
perfume de lança-perfumes
inebriantes
fontes
danças de estrelas

na batalha de confetes
requebros noturnos
ruas apertadas
portas abertas

noites de carnaval, noites
de luar


(para Jefferson Bessa)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

neste carnaval a batucada alada

neste carnaval a batucada alada
do teu coração vem em segredo
pulsando implode com soluço e gozo
da tua dentina o brilho serpentina
se envolve na tua boca pequenina
onde o desejo acende teus incensos
sândalo salgado perfumada rima
no carnaval de tão perdida rosa
que desce tua cintura e goza




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CARNAVAL



CARNAVAL


ROGEL SAMUEL


NUM carnaval livro que me faz pensar a morte.

Um livro amarelado, de latim.

Sim, porque é carnaval, nós pensamos muito, ao som daquela batucada.

A muito antiga recordação me chega pelos blocos de sujos, pelas máscaras da morte. Seus corredores.

O desfile. Longe. Seu rebolado, ouço.

De seus batuques o bulir.

De seus reco-recos a tamborinada batucada.

O desfile segue, na direção da morte.

Da Matriz? Do Congresso?

Do princípio ou do fim?

Nítido já não está seu quadro mágico.

No escuro da esquina o grupo some.

Roda o tempo, mergulha, abissal grito de dor.

Corta a espada o sonho antigo.

Personagens, fantasias saem pela porta que sempre esteve ali, aberta, mas disfarçada. Vestidos de mortos. Da morte.

A uma quadra dali, estala o balaco-baco do quadro carnavalesco.

É onde estive.

Onde sempre estarei.

Outra face.

Olímpico, Rio Negro.

As fantasias esgarçadas, esmaecidas.

Pulsa o sangue novo dos viventes mortos.

Transparentes véus se abrem de onde saem as festas. Fadas, prestidigitadores, coreógrafos, mandarins, camélias.

Um raio de serpentina luminosa atravessa o ar, desenrola seu puro ouro.

De dentro do salão tudo brilha como cristal.

O salão espelhado do Clube. Faz tudo girar. 
 
É redondo.

Das lança-perfumes o perfume o ar.

Oh, Camélias de minha vida, reapareçam!

No chão súbitas estrelas lancinantes caem e abrem seus cortinados de papel crepon.

Quem nunca pensei rever, agora está ali dançar.

O Sílvio me acena, cantando, rebolando, gestualizando, do fundo de seu passado.

Sapateado Maloca dos Barés.

Todos ali se afastam das mesas nas fantasias de si mesmos.

O rei Momo e sua corte avança, na alegoria da vida.

Não o reconheço.

Ele prospera ali.

Vem do luar um halo da mágica fala branca que atravessa o vácuo da noite.

A festa goteja, se afasta.

No céu se faz um súbito silêncio.

Brutal surdez cristaliza mundos estelares.

Onde, ó Amada, estão eles?

Não ouso pronunciar seus nomes.

Para onde foram, foliões?

O desfile entra no vale das sombras.

Alegria se desconstruindo, fazendo-se distante e silenciosa.

No afastado em vão os chamo.

- Não me deixem, ó Brinquedos! Não atravessem este rio. Voltem para seus barcos.

......

A vida desfila carnavalesca. Alegres, cantantes, fantasiados, mascarados, palhaços. Mergulham na morte. O vento.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a palavra falada tentada forçada escrita

a palavra falada tentada forçada escrita


rogel samuel



a palavra falada tentada forçada escrita
a ventarola do fio do violino a porta
o mormaço cobre o túmulo e volta

gente
e volta a ser gleba
voltamos nós
à palavra falada ouvida esquecida esquisita
morta
como o fio do destino à porta
é um outro lugar
um salão sagrado, familiar, construído há tempo,
e cheio de morte
ecoando suavemente mofado escuro quieto
como nuvem de umidade
por cima do tapete verde da pedra
espero a “Celebração da paz”, de Holderlin