domingo, 11 de janeiro de 2015

baixada blues





baixada blues

vou seguindo nessa estrada
a pé, e me vejo perdido
e enfim achado
na busca do meu passado
revoada de pássaros
cães não ladram
campo de flores e de lixo
vou seguindo nessa estrada


de lata


rogel samuel

domingo, 22 de junho de 2014

Poema para Tufic


Poema para Tufic

Rogel Samuel

As tapioqueiras, vestidas de branco, dobram as tapiocas
como quem vira a página em branco.
Dobram as tapiocas
como quem encaderna o livro.
As tapioqueiras, vestidas de rendas, curtem suas tapiocas
no fogo do amor.
As tapioqueiras, vestidas de noivas, abrem suas pequenas tapiocas
nos tachos do abraço.
As tapiocas belas das tapioqueiras

vestidas de doce
de leite
de côco

de brincos
brancos.
Vêm com manteiga
e beijo

e mel.
Vestidas de barro
do abraço.

domingo, 23 de março de 2014

OVIDIO: METAMORFOSES

 









Trad. livre R. Samuel

A MINHA ALMA CANTA
AS FORMAS TRANSFORMADAS EM OUTRAS FORMAS.
Ó DEUSES, INSPIRAI-ME!
POIS NÃO FOSTES VÓS, POR CERTO,
QUEM AS TRANSFORMOU?
MINHA OBRA E MEU CANTO
CONDUZI, ININTERRUPTO,
DESDE AS PRIMEIRAS ORIGENS
DESTE MUNDO
ATÉ A NOSSA ÉPOCA ATUAL.

Antes do mar, antes da terra e do céu
que tudo cobre
um só era o todo desta natureza
a que chamamos Caos,
massa rudimentar massa informe.
Nada senão seu próprio peso
sim, as coisas semeadas em discordes
montes, amontoadas sem nenhum ajuntamento.

Pois nenhum filho do Céu e da Terra
dava luz ao mundo. Nem Febo no horizonte
no nascente
reconstruía seus chifres,
nem a terra pendia do ar
que a envolvia em sustentáculo
vazio, em seu próprio peso,
nem mesmo a querida Anfitrite
(a virgem) estendia
seus braços pelos limites
daquelas terras.

Onde quer que houvesse o piso da terra
ali também havia o mar, havia o ar.
A terra instável, a onda inábil, o ar
privado daquela luminosidade.
Nada ali permanecia como era,
em sua forma própria, e uma coisa
se chocava às outras porque
num só corpo o frio lutava contra
o quente, o úmido com o seco,
o mole com o duro, o pesado
contra o sem peso algum.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

agonia carnaval




o carnaval passa nas cortinas
em batucada passa
no coração que implode em seguida
pulsando sensação de soluço e pandeiro
pela vidraça o brilho serpentina
rebola na tua boca fina
de onde o ouro sai e acende 

teus ingressos de salgada perfumada rima
neste carnaval de tão sonora massa
que desce pela viela para a praça

foi numa noite de agosto



 
 
 
 
 foi numa noite de agosto
 
rogel samuel
 

foi numa noite de agosto
que apareceu a tal lua
os lábios naquela água
o corpo dado aos amantes
amantes não sabem nada
que há tempos não se via
a gargalhada menina
da lua de rica rima
poetas que não se fiem
poetas nada sabem
que é até mesmo uma pena
que esta caneta tão prima
não seja feita mais fina
como ponta de punhal


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

a vida sob o vulcão




inclemente triste face
as imagens do vulcão
minha irmã indonésia
sofro com esse olhar de soslaio
Não é o Monte Sinabung
que abre a fúria dos deuses da terra
mas o teu recolhimento sereno
sob o lenço virginal
e a tua toca de freira
o pequenino nariz e a boca
e o olhar perdido no mundo
a triste face pequena




rogel samuel

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

noites de carnaval, noites

noites de carnaval, noites
de ruidoso amor
o baticum dos tambores
africanos
os humores eróticos
os tremores requebrados
passistas apressados
nas noites de antigos
carnavais
perfume de lança-perfumes
inebriantes
fontes
danças de estrelas

na batalha de confetes
requebros noturnos
ruas apertadas
portas abertas

noites de carnaval, noites
de luar


(para Jefferson Bessa)